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Eis que a TENSÃO que esgarça sobrevidas; alarga abismos injustos e mortíferos; destrói futuros jamais previstos; aprisiona e empilha corpos em jaulas e covas; mata, seja por mortes morridas — por vírus sem rédeas e descasos brancocêntricos — ou por mortes matadas — por fuzis que lançam 520 anos de genocídio por segundo; eis que ROMPE-SE, ESTANCA, como a linha com cerol fino da pipa. A pipa, voada. A linha com cerol necropolítica degolando o mundo.

Estátuas caem. Branquidade se ajoelha. Lá na diáspora do norte do pós-mundo.

No pós-mundo da diáspora do sul as favelas gritam. Corpos pretos nas ruas. Corpos pretos em luta. Corpos pretos querem sair, mas não saem. Aqueles — muitos — que saem, ocupam a cidade partida embaixo de bomba e truculência do Estado. Nada de novo, a covardia é esperada. Triste de ver preto de coturno, que coloca a pretitude na periferia da sua existência, investir violência e opressão ao seu próprio povo. Das assimetrias mais doídas de viver. As ruas virulentas, de vírus e de ódio, a pátria nazi-fasci-racista, traumatizam o trauma des traumatizades.

Agora, o trauma transmuta e implode as entranhas da colonialidade. Estamos testemunhando o aprofundamento das fissuras que temos rasgado com as próprias mãos. Vemos no chão, por toda parte, escombros de uma pseudo-vida, de um pseudo-mundo que não se sustenta mais na contemporaneidade.

Apontando para onde o mundo se encaminha, Castiel Vitorino Brasileiro e Jota Mombaça, que intitularam as abordagens artísticas “O TRAUMA É BRASILEIRO” e “O MUNDO É O MEU TRAUMA”, respectivamente, são a vanguarda da elaboração do TRAUMA PRETO a que Fanon se referiu e apresentou ao mundo em “Pele Negra Máscaras Brancas”, acrescido de um substrato interseccional-queer que estilhaça, com magnitude sísmica, os engessamentos de corpos, vivências e visões de mundo e epistemologias limitantes.

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Castiel Vitorino Brasileiro | Frame da série “Anotações sobre o fim”, 2019 — Felipe Lacerda

Castiel Vitorino Brasileiro (1996). Artista visual, macumbeira e psicóloga mestranda no programa de Psicologia Clínica da PUC-SP sob orientação de Suely Rolnik.

Pesquisa e inventa relações em que corpos não-humanos se desprendem das amarras da colonialidade. Compreende a macumbaria como um jeito de corpo necessário para que a fuga aconteça. Dribla, incorpora e mergulha na diáspora Bantu, e assume a vida como um lugar perecível de liberdade.

Atualmente, desenvolve estéticas macumbeiras de sua Espiritualidade e Ancestralidade Travesti.

Idealizadora do projeto de imersão em processos criativos decoloniais Devorações.

Nasceu em Vitória/Espirito Santo — Brasil.

Mora em São Paulo/SP

Neste Mês do Orgulho LGBTQi+, abrindo clareiras nesta configuração de Brasil bestial, me aproprio desses faróis insurgentes, que não são tão somente luzes, mas também fogo que queima e purga a mediocridade branca, racista, fascista, capitalista, ocidental, bélica.

O MUNDO É MEU TRAUMA

Segunda Nota. Àquelas de nós cuja existência social é matizada pelo terror; àquelas de nós para quem a paz nunca foi uma opção; àquelas de nós que fomos feitas entre apocalipses, filhas do fim do mundo, herdeiras malditas de uma guerra forjada contra e à revelia de nós; àquelas de nós cujas dores confluem como rios a esconder-se na terra; àquelas de nós que olhamos de perto a rachadura do mundo, e que nos recusamos a existir como se ele não tivesse quebrado: eles virão para nos matar, porque não sabem que somos imorríveis. Não sabem que nossas vidas impossíveis se manifestam umas nas outras. Sim, eles nos despedaçarão, porque não sabem que, uma vez aos pedaços, nós nos espalharemos. Não como povo, mas como peste: no cerne mesmo do mundo, e contra ele.

(MOMBAÇA, Jota. O mundo é meu trauma. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 11, página 20–25, 2017.)

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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