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TRIBUNAL DO BRANCO OFÍCIO

“Vi em seu currículo que você fez quatro períodos em outra faculdade. Por que você resolveu vir para cá?”, me veio a pergunta em uma sala fechada onde fiquei sob julgamento de cinco professores da universidade — todos brancos — após eu ter passado pelo processo seletivo para estagiar na redação do jornal da instituição. Como eu já tinha a resposta na ponta da língua, consegui me expressar muito bem, ao dizer, de uma forma sucinta e sem titubear, que preferia que, em meu diploma, viesse o nome da universidade em questão do que o daquela que ignorou os meus pedidos de melhoria de disciplinas e que não prezava pelo trabalho acadêmico de seus alunos. Assim, passei no processo seletivo e trabalhei, pela primeira vez, em uma redação de jornalismo impresso.

Mas por que essa pergunta foi feita e qual a importância dela para saber se eu seria um bom estagiário? Pois convenhamos que uma pessoa sair de uma instituição de ensino para fazer o mesmo curso em outra é algo completamente banal. A resposta parece estar, literalmente, na cara, mas o que mais me intriga, de fato, é outra coisa: por que é que eu já tinha esse texto todo de resposta na minha cabeça antes mesmo de alguém me fazer essa pergunta? A verdade é que nós nos acostumamos com o olhar inquisitório do branco sobre nós em qualquer possibilidade. Por isso, procuramos ter todas as saídas para este Tribunal do Branco Ofício de antemão.

Duvida? Quantas vezes você já ensaiou o que diria para a polícia caso alguma viatura te parasse para dar uma dura? E, em caso de te perguntarem onde mora e trabalha, já tem o texto decorado? E em alguma loja? Já tem o texto gravado caso o segurança pergunte o que você faz com o produto que você comprou? Quem discorda que isso exista é branco.

Dizem que o Batman, o único membro sem superpoderes “naturais” da Liga da Justiça, possui um plano secreto para derrotar cada um de seus super colegas em caso de algum problema. O Batman é um ninja-soldado treinado para aguentar cargas absurdas de violência e estresse. Já nós não. Somos simples pessoas que, mesmo assim, articulamos planos secretos para enfrentar este superpoder chamado branquitude. Um poder que nos foi vendido como sendo “natural”.

Eu não sou o único que está se sentindo exausto nesses dias. Todos os meus amigos e colegas de pele preta têm recebido muita demanda de um mês para cá — pois nunca fomos tão requisitados fora do mês de novembro — por causa dos acontecimentos pós-George Floyd, mesmo que já tivéssemos um Caso George Floyd a cada 23 minutos no Brasil. O branco brasileiro descobriu o negro e, como todo processo colonizatório, vem a bandeira fincada. “Mas posso confiar em você mesmo para este trabalho?”, parece ser a pergunta oculta em alguns convites, propostas e oportunidades que têm surgido de mãos brancas. Por isso, acontecem as sabatinas, reuniões e entrevistas incansáveis, para que provemos nossa capacidade de fazer aquilo que sempre fizemos. A finalidade parece ser a exaustão, e não a garantia da competência. É o escorrego pelo cansaço em que aquela tirada clássica “sobrevivi a outra reunião que poderia ter sido um email” surge com um outro significado nada engraçado.

Costumo dizer que a frase mais importante do verdadeiro hino nacional brasileiro — “Negro Drama”, dos Racionais MC’s — é “aquele louco que não pode errar”. Negro que erra morre, e o sistema é feito para que erremos. Assim como as ridículas dinâmicas de entrevistas de emprego, que servem mais para forçar o deslize dos candidatos do que revelar as suas qualidades, o processo inquisitório disfarçado de abertura para novas oportunidades também serve para o mesmo jogo de perde-perde. Se essa alvorada das oportunidades não é real e se a desconfiança ainda consegue ser maior do que a real vontade de se incorporar o antirracismo, acho mais fácil cortarem logo essa fleuma inquisitória e irem direto para a tortura e a fogueira. Seria mais sincero.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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