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Billie Holiday vivendo blues

Tudo será blues: vida, (além-)sociologia e esperança em 2021

Eu estou cansada. Não, esta coluna não será a este respeito. Aliás, desconheço até o que desejo para ela. Da indefinição não é possível disponibilizar qualquer conhecimento, aprendi com Audre Lorde (1979), porque sequer compreendido e elaborado ainda como tal. Talvez por isso, creio, tenho revisado sociologias e teorias da existência na(s) colonialidade(s). Entendam, dizê-lo não (me) faz desprezar ou reconhecer/enaltecer a longeva produção teórico-epistêmica negrodissidente (feminina, masculina, não-binária, agênero) anti ou decolonial sobre estruturas, técnicas e tecnologias de dominação/opressão/exploração/espoliação/dessubjetivação das branquidades racimasculinopatriarcais e heterocisnormativas sobre corpos e corpas não-hegemônicos(as), mas reduzir as possibilidades e múltiplas expressões da existência à mera sobrevivência resistente é despotencializar o caráter criativo das soluções, técnicas e saberes muito originalmente aqui em território brasílico encontrados/forjados na tentativa de fazer frente à morte impetrada pela precarização material/simbólica e, também, insistir na produção e reprodução da vida enquanto alegria, ou lamento, amor e amar, afeto, poesia e felicidade de existir assim único/a/que, digno/a/e e agora.

Samba, capoeira, blues, jazz, hip hop, rap, funk antologizam histórias, ancestralidades, cosmologias, e cosmogonia, teoria e pensamento social complexos acerca da realidade e do viver contemporâneos — e sua pedagogia é incontornável, não obstante o silenciamento racimachista e LBTGIAP+fóbico sistêmico — , porém, e apesar da reiterada assimilação mercadológica do branco capital, samba, capoeira, blues, jazz, hip hop, rap, funk são (re)construções ficcionais de vida, e vida possível, e cura à dor do ódio irracional e desprezo. Recordo as linhas do teatrólogo e dramaturgo estadunidense August Wilson (1984) refeitas por Viola Davis como Gertrude “Ma” Rainey (1886–1939) em “A voz suprema do blues” (Netflix, 2020): quem não existe blues não pode entender o blues. Não entende, pois não se existe de igual maneira. Blues é forma de ver e enxergar a vida. Negro, o blues é ver e existir a vida na humanidade restituída de si e seu grupo. No equilíbrio entre um e outro, vida e som, plenitude e vazio, na (j)unção desoceânica (tatiana nascimento), haverá o blues. Ao fim, como antes, e no futuro, tudo será blues. Sempre foi. E se foi, ainda é, lembrou Emicida (“AmarElo — É tudo pra ontem”, 2020).

O que é soa futuro, e ambos, presente e futuro, só são sonháveis conquanto já possíveis no passado. Retornar exige esforço além de historiográfico, imaginário. Imaginação requer viver além-sociologia, a despeito dela. E com ela. Da constante tensão entre tais matrizes — e diferenças, portanto — , um mundo refundado em economia diversa, plural de afetos, relações e liberdades se construirá — coletivamente.

Em 2021, definamos projetos e liberdade. Definamos o futuro. Definamos a esperança.

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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