Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Frame de “Caixa D’água: Qui-lombo é esse?”, filme de Everlane Moraes.

Um corpo preto: o que e onde cabe?

Mesa do I Seminário Negritude na Ciência, Tecnologia e Comunicação — Sub-secretaria de Ciência e Tecnologia da Prefeitura de Niterói

O CORPO PRETO É UM CORPO POLÍTICO.

O CORPO PRETO É UM CORPO FILOSÓFICO.

O CORPO PRETO É UMA LINGUAGEM EM SI.

O CORPO PRETO É UMA PLATAFORMA que sustenta o binômio Corporeidade — Oralidade.

O CORPO PRETO É UM CORPO ESTRANHO NO TECIDO SOCIAL RACISTA.

Sendo assim, buscamos epistemologias e correntes teóricas que promovam uma reação à altura, que deem conta do aporte histórico, linguístico, psicológico e existencial das nossas vivências, já que se torna imperativo restabelecer e ressignificar nossos lugares, nossos corpos, quando tudo o que existe é a partir da nossa morte.

“Precisamos ter coragem de dizer”, Aimé Cesaire nos alerta. A descolonização dos corpos e das mentalidades são urgências existenciais, tendo como fios condutores as análises dos sistemas de significação e representação culturais, bem como a dimensão da invisibilidade do ser preto na diáspora (proposto por Stuart Hall em Da Diáspora); e, ainda, lidando com o grande dilema do “ser prete”: branquear ou desaparecer, quando nas sociedades ocidentais o indivíduo preto é fobógeno e ansiógeno (provoca fobia e ansiedade), indo mais além, o mesmo racismo atravessa diferentemente os indivíduos, provocando danos psíquicos imensuráveis (como Franz Fanon nos revela implacavelmente em Pele Negra, Máscaras Brancas).

Para além desta realidade mapeada e bem conhecida, observa-se, hoje, o levante extremista, pseudo-nacionalista, neopentecostal, neoliberal, neoconservador, apresentando um panorama geopolítico que acirra e recrudesce o ambiente para pretas e pretos globalmente, emergindo narrativas e discursos em que o “ser preto” torna-se o centro de questões que arrastam-se secularmente (Achille MBembe).

Gostaria de oferecer uma perspectiva a partir do livro “Pensar Nagô”, de Muniz Sodré, que discorre sobre a violência cultural ou simbólica, a que chama semiocídio ontológico:

Ou seja, sempre foi um projeto o nosso extermínio e ele começou de forma muito eficiente: alienando nosso sentido de ser e existir — por sermos desprovidos de espírito — nos forçando a dar voltas e mais voltas na árvore do esquecimento, nos destituindo dos nossos pressupostos culturais e simbólicos para que nos tornássemos CORPOS MATÁVEIS. Existe uma lógica, um racional, uma construção para justificar nosso extermínio, para fazer desaparecer nossos corpos.

Sendo assim, reontologizar é preciso. Precisamos ser nossos próprios restituintes do nosso sentido de ser e existir. Enxergo, para tanto, a comunicação como esse grande campo, onde estão circunscritas as diferentes linguagens — referenciais e artísticas — que dão suporte às nossas representações: a inscrição, autoinscrição, o alcance das narrativas, dos discursos, das cadeias de valor, produção e realização através dos imaginários que construímos e carregamos.

A comunicação a que me refiro é necessariamente interseccional e que suas teorias estejam sendo revisionadas por epistemes afrodiaspóricas e africanas. O revisionismo comunicacional e demais revisionismos teóricos de diferentes campos do conhecimento estão em curso, já que a exclusividade filosófica/epistemológica greco-europeia não dá conta das nossas experiências, sabemos.

Vislumbra-se, assim, janelas de oportunidade para o reconhecimento e fortalecimento dessas epistemologias a partir da perspectiva de uma educação transgressora em via de mão dupla — educador e educando em “equilíbrio dinâmico de transgressões”, com a intenção de romper estruturas eurocêntricas de ensino e acessar aprendizados contra-hegemônicos — que preveja o contato com as questões da contemporaneidade: política, cultura, raça, gênero, sexualidade, como bell hooks nos oferta em “Ensinando a Transgredir: A educação como prática da liberdade.”

Eu utilizei como suporte visual à minha fala esse frame do filme “Caixa D’água: qui-lombo é esse?” de Everlane Maraesa, que entrega a silhueta do corpo negro emulando o “Homem Vitruviano”, obra emblemática de Leonardo Da Vinci, símbolo máximo da humanidade universal. Um homem preto dotado de humanidade, um homem preto de proporções divinas perfeitas, o homem ideal sendo ele PRETO.

Nele tudo cabe. Sempre coube.

E cabe onde for na medida das fissuras, dos alargamentos, das distenções, dos deslocamentos radicais que produzimos enquanto caminhamos sobre os escombros da grande noite do mundo, como sentencia Achille Mbembe.

Written by

Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store